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TDAH na Adolescência e Uso de Celular: O que a China nos Ensina

Foto do escritor: Jose Guilherme Giocondo
Jose Guilherme Giocondo
3 de set.
3 min de leitura
Existe uma ideia muito difundida de que os sintomas de TDAH vão diminuindo conforme a criança cresce. E ela tem um fundo de verdade: a criança que não parava quieta aos 8 anos costuma estar bem mais calma aos 14.

Mas um estudo publicado este ano no Journal of Affective Disorders acompanhou mais de 3.400 jovens chineses, dos 10 aos 18 anos, e encontrou algo que muda um pouco esse enredo.
A curva não é uma descida. É um "U".

Os sintomas de desatenção e agitação realmente caem entre os 10 e os 14–15 anos. Só que, a partir dos 16, eles voltam a subir. Não ao nível da infância, mas sobem, e de forma consistente.
Por quê? A explicação mais aceita hoje é que o cérebro adolescente amadurece "fora de ordem": as áreas ligadas à emoção e à recompensa ficam prontas antes das áreas responsáveis pelo freio e pelo planejamento. Junte a isso vestibular, pressão social, menos sono e mais autonomia, e você tem um período em que o autocontrole é testado ao limite, justamente quando ele ainda não terminou de se formar.

Um detalhe curioso:
Nem todos os sintomas seguem o mesmo roteiro. A impulsividade cai e não volta. A agitação (hiperatividade) e a desatenção são as que "repicam" no fim da adolescência. Ou seja, não estamos falando de uma coisa só chamada TDAH, mas de dimensões diferentes com relógios diferentes.

E o celular?
Aqui o estudo fica mais provocativo. Os pesquisadores mediram, a cada seis meses, o quanto o uso do celular era "problemático" (sensação de não conseguir parar, incômodo sem o aparelho, prejuízo em outras atividades). Não era tempo de tela, era relação com o aparelho.
O achado: quanto mais problemático o uso num semestre, mais sintomas de TDAH no semestre seguinte, mesmo descontando como o jovem já estava antes. Esse padrão apareceu dos 10 aos 18 anos e ficou mais forte depois dos 16, exatamente na fase do "repique".
E quando separaram os jovens em perfis, o grupo com uso persistentemente problemático (cerca de 1 em cada 5) foi o que mostrou mais agitação em toda a adolescência e a subida mais íngreme no final.


Antes de culpar o celular:
Os próprios autores fazem questão de frear a conclusão fácil. O estudo mostra uma ordem no tempo, não causa e efeito. Existe um caminho inverso (jovens mais desatentos também tendem a usar mais o celular de forma problemática), embora ele tenha aparecido mais fraco. E é bem possível que as duas coisas tenham uma raiz em comum: um sistema de recompensa muito sensível e um freio ainda em construção tornam o jovem mais propenso tanto à desatenção quanto ao celular difícil de largar.
Também vale lembrar que os sintomas foram medidos por questionário de triagem, não por avaliação clínica, e que a amostra é de um único país.

O que fica de útil
  1. A adolescência tardia é uma segunda janela de atenção. Não é raro que alguém receba o diagnóstico de TDAH só aos 17, 20 anos, e este estudo ajuda a entender por quê.
  2. "Meu filho melhorou muito aos 13" não significa que o assunto está encerrado. Vale observar como ele chega aos 16, 17.
  3. O uso problemático de celular é um sinal que merece atenção, não como vilão isolado, mas como indicador de que a regulação está em aperto. E, diferente da genética ou da maturação cerebral, é algo sobre o qual dá para agir.

O recado final não é "tire o celular". É: conheça a curva. Saber que existe um repique previsível no fim da adolescência muda a forma como a gente acompanha, orienta e intervém.


Fonte: Xiang K, Huang S, et al. Longitudinal trajectories of ADHD-like symptoms across adolescence and associations with problematic smartphone use: Evidence from a five-wave cohort study. J Affect Disord. 2026;413:122230.
 
 
 

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