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A epidemia de gênios? Quando o diagnóstico vira identidade e a clínica deixa de investigar

Foto do escritor: Jose Guilherme Giocondo
Jose Guilherme Giocondo
28 de set.
2 min de leitura
Nos últimos anos, cresceu muito o número de adultos que chegam ao consultório com suspeitas ou diagnósticos de autismo, TDAH, altas habilidades e superdotação. Parte desse aumento representa um avanço real: muitas pessoas passaram décadas sem diagnóstico adequado. Mas também existe uma pergunta legítima: estamos diagnosticando melhor ou, em alguns casos, diagnosticando demais?

O problema começa quando a avaliação deixa de investigar hipóteses e passa apenas a confirmar aquilo que o paciente já espera encontrar.

Redes sociais como TikTok, Instagram e YouTube ajudaram a ampliar o conhecimento sobre saúde mental, mas também popularizaram conteúdos simplificados sobre TDAH, autismo, hiperfoco, masking e superdotação. O risco é transformar sintomas inespecíficos em diagnóstico.

Procrastinação, desorganização, dificuldade de concentração, impulsividade, cansaço e hiperfoco podem ocorrer no TDAH, mas também aparecem em ansiedade, depressão, transtorno bipolar, privação de sono, burnout, uso de substâncias e transtornos de personalidade. Da mesma forma, dificuldade social, preferência por rotina e interesses intensos não bastam para estabelecer um diagnóstico de autismo.

Sintoma não é diagnóstico.

Uma avaliação adequada precisa considerar história desde a infância, prejuízo funcional, funcionamento social, trajetória escolar e profissional, sono, uso de substâncias, transtornos de humor, ansiedade e personalidade. A avaliação neuropsicológica pode ajudar muito, mas testes e escalas não deveriam substituir o raciocínio clínico.

Outro fenômeno importante é a transformação do diagnóstico em identidade. Receber um diagnóstico correto pode ser libertador, mas o problema surge quando TDAH, autismo ou superdotação passam a explicar toda a história da pessoa e qualquer dificuldade de relacionamento, organização ou comportamento.

Diagnóstico deve aumentar compreensão e capacidade de mudança, não eliminar responsabilidade.

O mesmo vale para altas habilidades e superdotação em adultos. Inteligência elevada não é diagnóstico psiquiátrico e não explica automaticamente sofrimento emocional, conflitos interpessoais ou dificuldades funcionais. Uma pessoa pode ser intelectualmente brilhante e, ao mesmo tempo, apresentar depressão, ansiedade, TDAH, autismo, transtorno bipolar ou transtorno de personalidade.

Alguns diagnósticos também são mais socialmente aceitos do que outros. Poucas pessoas chegam ao consultório desejando ouvir que apresentam transtorno de personalidade borderline ou traços narcisistas. Esses diagnósticos não representam culpa moral, mas frequentemente exigem reconhecer padrões emocionais e relacionais que precisam ser trabalhados.

O profissional não deveria oferecer o diagnóstico mais confortável, mas aquele que melhor explica o quadro.

O risco de um diagnóstico errado de TDAH ou autismo é maior do que simplesmente receber um rótulo inadequado. O diagnóstico influencia medicação, psicoterapia, adaptações e a maneira como a pessoa interpreta a própria história. Um falso diagnóstico pode inclusive esconder a verdadeira causa do sofrimento.

Por isso, a questão não é diagnosticar menos.
É diagnosticar melhor.

Uma boa avaliação precisa estar aberta tanto a confirmar quanto a rejeitar hipóteses. Precisa perguntar não apenas “o que combina com esse diagnóstico?”, mas também:
“O que neste caso não combina com ele?”

Em uma época em que sintomas viram vídeos, vídeos viram checklists e checklists rapidamente viram identidades, essa talvez seja uma das funções mais importantes da boa psiquiatria.

Diagnóstico não é prêmio, desculpa ou certificado de genialidade. É uma ferramenta clínica para compreender melhor a pessoa e orientar o tratamento correto.
 
 
 

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